• Flávia Siqueira

BENTINHO, HOMEM TRAÍDO OU REPRIMIDO ?

Ei, você mesmo que veio parar aqui nesta página. Você já foi manipulado (a) ? já se sentiu usado (a) em benefício do outro? Alguma vez já se sentiu com o coração apertado por dizer sim a alguém e não sabia por que se sentia mal diante de certas situações?


Pois, bem caro (a) leitor (a). Em muitas situações da vida, o afeto vem casado com manipulação. O preto não está no branco, as cartas não estão sobre a mesa, e as reais intenções escondem-se atrás das máscaras afetivas.


Quando estamos em uma situação na qual não temos voz, em função das relações afetivas que construímos ou às quais estamos envolvidos, não podemos nos manifestar nosso ser ou mesmo nossos desejos e gostos. Relacionamos à essa ideia a reflexão da resenha de hoje.


Quem nunca ouviu a fatídica e célebre pergunta: Capitu traiu ou não Bentinho?




Santiago ou Dom Casmurro é o narrador da obra de Machado de Assis, Dom Casmurro. Essa é uma dessas histórias de desventuras amorosas. Mas, como não se trata de qualquer autor, ela vem recheada de pontos interessantes a serem degustados pelo leitor. Todo leitor de Machado de Assis deve ser atento aos detalhes impressos em sua criação literária.


Primeiro, tenha em mente: as histórias narradas em primeira pessoa merecem o olhar desconfiado de quem as ouve. Imagine que você observa um diamante, de cada ângulo que você olha há uma perspectiva. Não há como olhar a jóia de todos os pontos em sua completude. Lembre-se quem conta uma história, conta-a a partir do ponto de vista individual, de suas próprias impressões a respeito do objeto narrado-observado. Todo ponto de vista é a vista de um ponto, diz o ditado.


Dessa forma, toda história contada é ausente de outras partes que a completam em sua descrição. Assim, se alguém contar a você uma história sobre algo ou alguém, não dê créditos de prontidão. Pergunte-se sobre os outros aspectos da história que ainda faltam para completar o quebra-cabeça.


No entanto, eu compartilho da opinião de que essa pergunta já é ultrapassada e pouco profunda. Se de um lado, Bentinho descreve suas neuroses em relação a fidelidade de Capitu, por outro há pontos na narrativa que podem indicar certa congruência com a realidade objetiva da história.


Quero deixar claro e explícito que não sou especialista em Machado, não tenho a pretensão de estar à altura de uma análise literária. Sinto-me debutante a cada vez que leio as obras deste autor. Aqui, deixo minhas impressões e minha recepção da obra. Além disso, dirijo-me a leitores que são iniciantes ou que se sentem sempre iniciantes como eu.


Isso posto, voltemos à história. Os pontos da narrativa que me saltaram os olhos correspondem à quase metade da história. Bentinho relata, em outras palavras, o zelo, o cuidado e o amor de sua mãe, Dona Glória, por ele. E não era só ela que o tinha com esmero, toda sua família, empregados, agregados e vizinhança também. Mas a diferença entre o remédio e o veneno é a dose, neh minha gente!


Menino originário de família abastada do Rio de Janeiro, mimado, querido, amado, mas sem expressão, sem voz. Desde muito jovem o narrador encontra-se submetido à expectativa de sua mãe sobre sua vocação eclesiástica. Nesse ponto, temos o primeiro ponto chave da história.


É certo que devemos ter dúvidas sobre quais outros pontos da narrativa têm verossimilhança com a realidade ou quais são criação de Bentinho a partir de suas impressões do passado. Todavia, alguns trechos do livro marcam uma linha divisória entre o homem que devaneia nos delírios neuróticos de sua juventude e o homem que denuncia a falta de autonomia, muito presente na sua formação enquanto indivíduo.


Os detalhes do livro Dom Casmurro pontilham o desenho preciso do comportamento apresentado pelo personagem principal. Como um mágico ilusionista, Bentinho ao fazer a apresentação de si tenta persuadir o (a) leitor (a) a não procurar no dicionário o significado atribuído ao apelido “Casmurro”, que segundo ele, deve-se ao seu jeito “calado” e “metido” de ser. Entretanto, o (a) leitor (a) inquieto (a) e impaciente, buscará no dicionário todas as acepções dadas ao nome “Casmurro” e descobrirá, de cara, a manipulação inicial: o modo como Bentinho se vê parece não condizer com descrição feita ao longo da narrativa. Sua personalidade está mais inclinada para alguém que se comporta de modo obstinado e inseguro, que qualquer outra coisa.


Nos capítulos seguintes, Bentinho narra como começou a história de sua ida ao seminário e nos detalhes percebemos a personalidade imperativa de sua mãe, dona Glória. Em uma conversa com José Dias, amigo da família, discute-se a respeito do comportamento de Bentinho e de sua proximidade com Capitu. Dona Glória, para atender a uma promessa religiosa que havia feito, decidiu que Bentinho iria para o seminário:


Em todo caso, vai sendo tempo, interrompeu minha mãe; vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes. (Machado de Assis, p.3,1899)


Nesse instante da narrativa, percebemos já de início um personagem sem voz e sem o poder de decidir sobre o que gostaria de estudar para se preparar para seu futuro profissional. Bentinho submete-se à personalidade imperiosa e opressiva de sua mãe, satisfazendo-lhes as expectativas religiosas que ela havia criado em relação ao filho.


Criança ou adolescente criado sem autonomia e sem voz gera um adulto sem a capacidade de escolher por si mesmo o que quer fazer de sua vida. Veja bem, não digo que seja um determinismo, que tudo o que acontece na infância e-ou adolescência vá definir a fase adulta. Mas, é inegável que muito das nossas ações, medos, dúvidas, sentimentos e comportamentos têm origem na nossa infância, nos modelos que absorvemos de nossos familiares. Assim, ele se torna um homem inseguro e neurótico porque ele não teve o direito de exprimir opinião, sentimento ou escolher o que gostaria de fazer com o futuro de sua vida.


E não foi somente a mãe de Bentinho que lhe determinava o que fazer. Capitu ao saber de sua futura ida ao seminário, também lhe instrui a convencer o José Dias a persuadir D. Glória a enviar Bentinho ao curso de Direito em São Paulo:


Justo; tanto falou que sua mãe acabou consentindo, e pagou a entrada aos dois... Ande, peça, mande. Olhe; diga-lhe que está pronto a ir estudar leis em São Paulo (Machado de Assis, p.20,1899).


Assim, em pouco tempo ele segue para um seminário para agradar à mãe, embora o abandonasse posteriormente. Depois para o curso de direito, como lhe sugerira Capitu, embora tivesse o desejo latente de ser médico. As relações que Bentinho têm com a mãe, com Capitu, com Escobar ou mesmo com José Dias, eram relações que traziam que o colocavam sempre em posição passiva de expectador, de alguém que estava pronto a receber orientações ou sugestões de outra pessoa. Em diversas passagens do livro, Bentinho tem a voz embargada, esconde-se atrás da porta, não expõe o que pensa, não age.


Nessa ideia, voltando à questão relacionada à traição, ela parece ser secundária. Não se esqueça, Machado de Assis é expert em fazer ironia em prosa e em dissecar a natureza do comportamento humano. Nesta obra o autor descreve mulheres que têm vontade própria, que são independentes, que tem voz e que são imperativas. Este é um ponto interessante a se destacar uma vez que, no século 19 mulheres que apresentavam essas características não atendiam ao script social da época.


Bentinho era inseguro e não porque Capitu lhe fosse infiel ou insensata, mas porque não aprendeu desde pequeno a ter autonomia e voz. Ao contrário, Capitu era criada, sim com esmero e carinho, mas era desenvolta, ágil, observadora do comportamento de quem a rodeava e usava as palavras como quem faz um cálculo matemático e sabe o resultado final.


Por fim, acredito que a heteronímia deixa o indivíduo sem as ferramentas necessárias para agir diante dos problemas da vida. O autoconhecimento é também alimentado pela autonomia. Quem não se conhece e não é autônomo torna-se submisso, reprimido e pouco espontâneo. Esse é um ponto de vista a ser explorado nessa obra.


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